Pensamento Evolutivo – [Designer Inteligente]

Dentro do mundo animal, vamos pensar no camaleão. O camaleão é um bicho curioso. Um réptil muito característico, exótico e especial. Um dos animais que derivaram do nosso ancestral em comum dentro de uma linha evolutiva, há mais de 300 milhões de anos (nosso 170.000.000 avô). Época em que nós, seres humanos, tomamos um rumo diferente dos répteis. Migramos para uma jornada cheia de adaptações, desbravamentos e descobertas. Ao analisar friamente esse réptil, logo nos perguntamos: como pode um animal ser tão bonito e perfeito, com funções distintas e altamente especializado ao habitat em que vive? A resposta ideal e simplista seria considerar a existência de um “designer” por trás de tudo isso; se Darwin não tivesse desvendado o mistério.

O conto dos tentilhões [pássaros estudados pelo cientista] nos dá a clara resposta de como estruturas complexas e tão especiais como os intrigantes olhos do nosso antigo parente camaleão podem surgir, sem precisar de um “designer” inteligente por trás de tudo isso. Para entendermos um pouco sobre formação de novas espécies, desenvolvimento de sistemas complexos e estruturas importantes em seres vivos, precisamos envolver situações como a seleção natural, barreiras geográficas e mutações.

A seleção natural é um evento que ocorre ao acaso e proporciona a sobrevivência dos mais aptos a certos habitats. Um exemplo hipotético seria a destruição total da camada de ozônio num curto período de tempo. Os raios solares seriam tão fortes, que a grande maioria dos seres humanos não conseguiria sobreviver sob a radiação tão intensa. O leitor pode se perguntar qual seria o problema, já que podemos ficar muito tempo sem ter contato direto com o sol. A curto prazo, realmente não teríamos problemas, porém, quando ampliamos nosso estudo por décadas, observamos uma acentuada redução da densidade mineral óssea. Os raios solares ativam a pro-vitamina D existente no nosso corpo, e como consequência, uma determinada concentração de cálcio é depositada sobre os ossos, fortificando-os. A deficiência de raios solares enfraquece os ossos, por isso ele é fundamental para o crescimento e desenvolvimento saudável do corpo em crianças, assim como para os idosos ao evitar doenças senis, principalmente a osteoporose.

Dentro desse evento, quais pessoas seriam prevalecidas? Se o leitor pensou nos negros, acertou. As pessoas de pele negra tem maior resistência ao sol, logo podem ficar expostas por mais tempo sem precisar de doses maciças de filtro solar ou mesmo terem que ficar trancafiadas dentro de suas casas. Elas já possuem uma carregada dose genética de protetor natural: a melanina. Portanto, na nossa situação hipotética, os negros seriam os “escolhidos” pela seleção natural. Uma outra situação, semelhante ao exemplo hipotético, se aplica a história das mariposas camufladas em fuligem, na época da revolução industrial.*

Essa simulação mostra como podem surgir variações de espécies. Esses táxons sofrem adaptações ao meio, são vulneráveis ao processo de seleção natural, e então são denominados de raças. As raças pertencentes a uma mesma espécie diferem-se em apenas poucos detalhes. Qualquer mínima diferença de aspecto morfológico ou funcional, ou mais atualmente, bases genéticas incongruentes, é suficiente para a classificação de raças distintas. A eterna luta pela sobrevivência é fundamental para que os seres-vivos deixem descendentes e que estes consigam sobreviver e deixar os seus.

As raças podem surgir também por outras situações. Quando uma população é separada por qualquer estrutura física natural que impeça esses indivíduos de se encontrarem, como rios e cordilheiras,  surge uma barreira geográfica. Barreiras geográficas são responsáveis pela separação de inúmeras populações e a constante formação de várias raças. Quando essas populações estão separadas, elas se adaptam as situações que lhes cabem. Peço que o leitor imagine uma população de coelhos albinos. Esses coelhos vivem em harmonia em um habitat perfeito. Na verdade quase perfeito. Seria perfeito se não houvessem cheias constantes de um longo rio que atravessa a região e abastece os animais de água. De um lado do rio, onde vivem os coelhos, existem coníferas médias, lagos com grande quantidade de sais, e fartura de comida. Do outro, um ambiente cárstico, com sementes, arbustos e pequenos lagos. Também existem florestas densas, deixando o ambiente relativamente mais fresco no verão, e extremamente frio no inverno.

Numa determinada época de estiagem, o rio secou. 70% de suas águas evaporaram, formaram nuvens que foram levadas por correntes de vento a outros lugares, revelando o substrato arenoso com seixos e matacões distribuídos ao longo do seu curso. Agora o rio está livre para a travessia. Vários coelhos atravessaram o rio e colonizaram o outro lado, supostamente desconhecido. Experimentaram da situação que a natureza oferecia, agora com alimentos e ambientes distintos. Após um breve tempo, uma sequência de chuvas reestabeleceu e normalizou a situação, enchendo novamente o rio, e separou em duas distintas populações, a de lá e a de cá.

A população de cá, manteve-se original como sempre foi. Alimentando-se da comida farta, e água disponível nos lagos por muito tempo.   A população de lá, sobre a ação da seleção natural, adaptou-se ao ambiente relativamente diferente sofrendo pequenas modificações corporais ao longo de milhares de anos, formando novas raças de coelhos albinos. Entendemos essas adaptações como o crescimento de pelos mais densos para suportar o frio mais intenso, mudança de coloração para a absorção maior de radiação, garras mais fortes para sobreviver dentro das cavernas e a perda parcial da visão, já que é mais vantajoso o aperfeiçoamento de outros sentidos do que o desenvolvimento da visão num local onde não existe luz. A consequência de todas essas modificações leva a formação de novos indivíduos, seja por cladogênese ou anagênese, conforme as condições impostas pela natureza. 

A questão foi respondida. Novas espécies surgiram por procedimentos naturais. Dentro de Períodos ou mesmo Eras, milhões de animais se formaram e continuam se formando, irradiando-se para adaptações ao seu ambiente. Porém, o último evento, mas não menos importante [para não dizer um dos principais] não foi explicado. As mutações.

De maneira breve, mutações são alterações inesperadas na composição do material genético que resultam na expressão de proteínas características e/ou fenótipo diferenciado.  Em milhões de anos pudemos comprovar, através de registros fósseis, a presença de modificações nos mamíferos que levaram ao surgimento de inúmeras espécies. A própria irradiação adaptativa do musaranho [ancestral africano dos mamíferos] demonstra a possibilidade de novas espécies emergirem a partir de um único animal que sofreu diversas mutações. Mutação é mudança. Ela pode ser boa ou ruim, ao ponto de vista que se vê.
Uma mutação pontual num plasmídio bacteriano pode formar colônias mais resistentes aos antibióticos, e ao mesmo tempo facilitar a reprodução bacteriana, ampliando pequenos grupos de bactérias com centenas de indivíduos, para milhões formados diariamente. Ponto positivo para a bactéria. De outro modo, essa mudança é mais nociva ao homem, tornando certas doenças mais infecciosas e mortais; exigindo de nossa parte uma evolução constante. Uma corrida até então interminável, onde não podemos nos deixar alcançar.

O que caracteriza se uma mutação será viável ou desaparecerá com os indivíduos que a portam será justamente a seleção natural. Mudanças favoráveis aos indivíduos simplesmente ficam, as biologicamente desnecessárias, somem. Ao musaranho, nosso ancestral com mais de 180 milhões de anos, derivado do Jurássico, podemos considerar diversas alterações. Uma delas seria o aparecimento de um orifício nasal no dorso do animal, que permitia mergulhos breves para a caça de peixes, quando tratamos dos golfinhos, ou mesmo a aparição de patágios em ambientes cavernosos, aprimorando vôos curtos para a captura de pequenos frutos e insetos a noite, no caso dos morcegos. No curso da evolução inúmeras e variadas mutações surgem. Certamente o musaranho sofreu inúmeras mudanças que não o tornaram apto a sobreviver naquela situação. De acordo com a sorte, muito mais mudanças desfavoráveis surgiram do que propriamente as raras e exigentes alterações que a natureza solicita para perpetuação da espécie.

No decorrer da escala evolutiva, órgãos e sistemas complexos derivam de órgãos e sistemas mais simples, modificando-se e aperfeiçoando-se conforme seu habitat. Tanto os olhos do camaleão com a sua particularidade, como os olhos de outros animais também muito complexos, são frutos de uma evolução constante e não linear que envolve o meio em que vive e sua carga genética. 

O isolamento geográfico dos coelhos albinos gerado pela barreira, foi um exemplo de formação de raças. Caso alguma mutação aleatória ocorresse nesses animais e os tornassem diferentes a ponto de as populações separadas não conseguirem reproduzir entre si, quando houver novamente uma aproximação entre as duas populações, elas serão de espécies diferentes. Ou seja, os coelhos albinos do outro lado do rio não seriam mais coelhos albinos, teriam sofrido uma especiação.

O fato de não terem sucesso no cruzamento com a população de origem [isolamento reprodutivo], os coloca numa espécie diferente do seu ancestral. O isolamento geográfico pode ou não levar a um isolamento reprodutivo, já que podem-se formar raças ou novas espécies. Raças diferentes podem intercruzar formando descendentes férteis, espécies diferentes não. 

Inúmeros cientistas com suas publicações demonstraram e demonstram o quanto é bela a ciência. Conclusões que nos levam a outras dúvidas e que nos fazem escrever mais trabalhos buscando respostas lógicas, instigam o nosso mundo. É muito mais crítico e construtivo buscar as respostas de nossas infinitas perguntas em infinitos livros, do que achar a resposta de todas elas num único só.


*Clássico evento ocorrido em que mariposas sofreram uma seleção a partir da sujeira gerada pelas cinzas da Revolução Industrial. Antes da revolução, as mariposas brancas eram mais adaptadas, já que se camuflavam em prédios brancos. Durante e após a revolução, devido ao ar sujo, os prédios ficaram escuros. Logo, as mariposas cinzas se camuflavam com maior eficiência, e as brancas ficavam mais expostas aos predadores, como os pássaros.

Gabriel Hunzicker Skiba -   15/01/2011
      

Gabriel Hunzicker Skiba é colunista do Jornal Morretes Notícia, professor de Biologia e mestrando pela Universidade Federal do Paraná - UFPR 

Contato: (41) 9623-5337
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Atualizado em 21/02/11

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